terça-feira, 15 de março de 2011

Augusto dos Anjos - Psicologia de um vencido

Há muito devo a esse blog uma postagem sobre Augusto dos Anjos, que quem me conhece sabe que ele é um dos poetas que mais admiro na literatura brasileira. Para mim, Augusto dos Anjos é um dos maiores poetas de nossa literatura, podendo até ser comparado com Camões, expoente máximo de nossa literatura. Alguns podem até dizer: " Que absurdo" ou " Como assim?". De fato, só quem conhece, e ler arduamente, sedentamente a obra de Augusto dos Anjos e seus poemas formalmente perfeito e espiritualmente profundos pode chegar a essa conclusão. Nos versos que se seguem, podemos ver o tratro de Augusto dos Anjos pela forma, mas sem perder por um instante a poderosa essencia do poema. Em Augusto vemos um trabalho arduo de metrificação que ao mesmo tempo parece ser tão natural, dada a excelência das formas. Numa análise profundo do escrito de Augusto dos Anjos vemos um decadentísmo ultragante, galopante, o total desprezo pela espécie humana, que segundo os outros versos do genial poeta paraibano, é fruto " dos partos mais obscuros da natureza":

Versos Intímos


Vês, Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável


Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que nessa terra miserável,
mora, entre feras, sente inevitável
necessidade de também ser fera


Toma um fósforo. Acende o teu cigarro!
Um beijo amigo é a vespera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja


Se a alguém causa pena as tuas chagas,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija.


Nessa genial obra, Augusto dos Anjos encerra toda e qualquer atitude humana,; anuncia o fim da espécie , que por causa de seu egoísmo e ganância decreta o início do fim da história. Dito isso em outras palavras, seria que o ser humano, como os outros animais, é um ser que precisa estar em grupos, que só se desenvolve com a ajuda dos outros, ou seja, confiando no outro que está sempre a seu lado. Por tanto, o ser humano só se desenvolve porque é um ser social, um ser que cresce pautado na confiança pelos outros seres de sua espécie, que como as outras, quer se perpetuar ad infinitum (sic). Nesse poema, Augusto dos Anjos desencapa e traz a lume toda a ganância e verdade do homem do século vinte que se anunciava promissor e cheio de novidades para humanidade, mas que de fundo trazia um odor insuportável, imoral, odor esse que se espalha e faz os mais fracos de vítima, odor que exala do coração do homem moderno - a ganância. Nesse raciocinio, é importante lembrar as palavras cantadas por Vanessa da Mata em "absurdo": " Desmatam tudo e reclamam do tempo, que ironia , desequilíbrio que alimenta as pragas, alterado grão, alterado pão, sujamos os rios, dependemos das águas, tanto faz os meios violentos, luxúria, ética do perverso vivo, morto por dinheiro" as palavras de Vanessa parecem um grito que ecoa desde as entranhas do poema Versos Ítimos e transormam em signo o clamor ancorado no eu-lírico de Versos íntimos. Esse queconflitante ser, a partir daquele momento (ínicio do século XX), sente um entussiasmo sem igual, que tomava conta da humanidade, que, por sua vez, pensava estar livre de qualquer dependência divina:o homem começara, finalmente, a andar com as próprias pernas. É desse momento da história da raça humana, que Augusto dos Anjos anunciava a semente do que seria hoje o fim da raça humana, que destroi-se e escravisa o outro. Toda essa visão, toda essa leitura do mundo que se anunciava, Augusto percebia por trás da cortina colorida das novidades um mundo cheio de horrores e monstros chamados raça huma.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Reiner Maria Rilker - Canção de Amor

O monstruoso poema de Rilker merece mais uma análise, pois a obra de arte poliédrica, como a de Rilker, merece inúmeras (infindaveis) análises, dada a sua natureza complexa e formidável. Na poesia Canção de amor, o eu-lírico sente-se amarrado a amada pelo amor. O amor, um habilidoso músico, toca e domina a vida dos amantes, que como mera corda de seu violino, são tangidos para que juntos toquem a melodia perfeita que encrementa o coração dos apaixonados. Nessa poesia, Rilker entrega-se sem esforço, a uma força que o domina, que ao mesmo tempo o faz escravo, o liberta, o faz vencedor, dominado e dominador. Assim configura-se a eterna dicotomia do amor - que como já descoberta por Camões ("o amor é fogo que arde sem doer') e pelo Aposto Pedro em Carta ao Conrínthios (texto Bíblico - I Corínthias 13) em que o santo diz que o amor é o sentimento mais podero da tríade perfeita dos sentimentos humanos (A fé, a paz e o amor) - é um sentimento cheio de ondulações, como as notas de um violino.l

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Rainer Maria Rilker - canção de amor


Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?

Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.

Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.

A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.


Railker é sempre notado por sua morbides, pelo apreço à morte, às coisas obscuras. Contudo, nem sempre o poeta traz essa marca em sua poesia. Em canção de amor, Railker mostra o seu lado mais sensual, amoroso. A atmosfera de solidão e desapego pela vida dá lugar a um coração apaixonado, enfeitiçado pelos movimentos da amada, pelo olhar incandescente dela que ao mesmo tempo parece frio e iluminador. Aqui, convida a amada a um lugar em que os dois, juntos e sós, possam desfrutar com mais intensidade e despudores, os frutos que nascem da árvore que os dois juntos cultivam, a árvore do amor e da paixão.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Reiner Maria Rilker - Hora Grave

Rilker é um dos mais celebres poetas do modernismos alemão. Conterrâneo de Kafka, é um dos mais fortes e reconhecidos autores do existencialismo moderno. Foi ele quem levou até o último limite o pensamento existencialista, sem ao menos o desgastar. Na poesia de Rilker, por vezes ,vemos um poeta preocupado com a forma e a descrição, Rilker era dono de verso raros e linguagem tratada, porém, simples. Mas é quando volta-se para o interio do homem moderno que Rilker mostra toda a sua força e talento: Rilker mergulha profundo, e como poucos, na alma humana produzida a partir da primeira revolução industrial, que desemboca, mais tarde.,no homem pós-moderno. Nele, o poeta encontra um imenso e inacabado lago de dor, sofrimento e angústia. Rilker soube tratar da existência humana, suas limitações, suas glórias e pequenez com maestría. A poesia de Rilker é incomum, pois, nela, a alma humana é moldada a seu querer, como se o poeta tivesse o mesmo dom do escultor (Rilker era secretário de Gaudin. Alguns críticos afirmam que o convívio com o escultor francês influenciou e muito a poesia do poeta praguense). No poema a seguir, vemos como é importante e forte a genialidade de Reiner Maria Rilker:

Quem agora chora em algum lugar do mundo
sem razão chora no mundo
chora por mim

Quem agora rir em algum lugar da noite,
sem razão rir dentro da noite
ri-se de mim

Quem agora caminha em algum lugar do mundo
sem razão caminha no mundo
vem a mim

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
sem razão morre no mundo
olha pra mim

(tradução: Paulo Plínio Abreu)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Concurso de poesias da UFMA: uma sucessão de erros

Recentemente, aconteceu uma coisa na cidade que me deixa meio pensativo: a universidade Federal do Maranhão abriu inscrições para o concurso de poesias da UFMA. Até ai, quase tudo bem. Antes, devemos refletir, o pelo menos jogar as cartas na mesa, sobre esse tipo de concurso.

O concurso de poesias da UFMA tem como princípio premiar a melhor poesia. Para mim, alguma coisa soa estranho. Primeiro, se poesia é arte, como julgar a arte, que é uma expressão do ser humano? Como dizer que uma pessoa tem mais sentimentos, ou reflexão para dizer que a outra? Se o poema é uma obra de arte, o que está em jogo é a sua estética, ou não? Nisso, entramos em mais um turbilhão de dúvidas: o conceito de belo não é excessivamente relativo, e muda de acordo com as concepções da sociedade? Julgar um poema é como se eu estivesse dizendo que um quadro, ou uma escultura é mais bonita que a outra, algo impensável do ponto de vista estético. Eu não posso dizer que um quadro do Rafael, Picasso ou mesmo Kandisky seja mais bonito que de artistas mais contemporâneos,como Ernesto Neto, Alfredo Volpi ou Tarsila do Amaral e seu Antropofagia; ou mesmo dizer que Balzac, Didero, Ernest Hemigway, Augusto dos Anjos sejam mais talentosos que Oswaldo de Sousa, Cecília Meireles, Lya Luft, Arnaldo Antunes ou Clarice Lispector, cada um tem sua beleza particular, expressão própria, é isso que os faz da obra de arte universal, carregada de regionalismo humano, de distintos pontos de vistas, em outras palavras, ser obra humana (de arte). Me perdoe a ignorância, mas na verdade, eu não entendo.

Mas o concurso da UFMA tem um absurdo a mais, além desse: antes do concurso acontecer, houve uma seleção das poesias que poderiam concorrer no concurso (continuo não entendendo) - um pré-concurso. Por incrível que parece, todos os finalistas selecionados já são poetas conhecidos da grande maioria do público, sendo assim, uma deslealdade contra os jovens poetas iniciantes. Será que a universidade não poderia errar menos escrevendo em seu concurso só poetas iniciantes? Para mim, uma sucessão de erros cometidos pela Universidade Federal do Maranhão.

Antes do fim, quero dizer que tudo isso que escrevi aqui não foi por dor de cotovelo de um candidato que não foi selecionado, nem me escrevi, afinal, não sou poeta e nem tenho a pretensão de ser (admiro quem tem). O que me motiva a tamanha revolta é o fato de inúmeros poetas talentoso, conhecidos meus ou não, ficarem de fora desse concurso. Gente talentoso, que nos emocionam com suas palavras sensíveis, grandes nomes da poesia contemporânea, mesmo não sendo conhecidos. O que me consola é o fato de que nem todos os grandes poetas de nosso país, e de outros, terem sido reconhecidos pelo grande público durante suas vidas, ou mesmo terem perdido em concursos como esse, como Augusto dos Anjos e Sousandrade, o que não diminuía em nada o talento sobrenatural que eles tinham. Estou certo de que, no futuro, a UFMA vai lamentar ter deixado de fora nomes grandiosos de nossa próxima geração literaria, visto ser aqui um celeiro de poetas talentosos e que sempre dão orgulho ao nosso Estado.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Português falado no Maranhão: múltiplos olhares




Quando se pensa seriamente sobra a língua portuguesa, deve-se levar em conta os inúmeros trabalhos publicados a cada ano pelos inúmeros órgãos universitários que têm feito estudos sistemáticos do português brasileiro. Tentar diferenciá-lo do português europeu, traçar suas marcas identirárias e perceber a relação entre a língua com as inúmeras culturas que vivem juntas no Brasil e o resultado dessa relação são só alguns dos objetivos desses estudos. Para Sociolinguística, qualquer investigação linguística que se faça deixando de fora as inúmeras relações sociais existentes nos grupos humanos acaba por cometer os mesmos enganos cometidos pelos estudos gramaticais ao longo dos séculos.

É também um dos objetivos da Sociolinguística, da Dialetologia e da Geolinguística brasileiras mapear os inúmeros falares no Brasil. Qualquer leigo sabe que um maranhense não fala como um gaúcho, carioca ou paulista. Essa consciência da variação tem apoio nos estudos geolinguísticos, sociolinguísticos e dialetológicos. Nesse sentido, não seria muito pensar em diferenças dialetais entre os estados brasileiros, em outras palavras, é possível falar em português falado em São Paulo, Rio de Janeiro e no Maranhão.

Quanto ao português falado no Maranhão, são muitos os mitos que o cerca: o primeiro e o mais famoso deles é o de que, no Maranhão, fala-se o melhor português do Brasil; outro mito é de que os falantes de português do Estado não se tem sotaque; esses e outros mitos fazem do português falado no Estado uma incógnita para os estudos dialetais e sociolinguísticos brasileiros, visto que não havia (ou havia poucos), até o ano de 2000, estudos que confirmassem essas ideias que já estão arraigadas no inconsciente da coletividade brasileira.

Com vistas a confirmar, ou mesmo, desfazer essas ideias, o Projeto Atlas Linguístico do Maranhão - Projeto ALiMA, do curso de Letras da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) - lança sua terceira edição da série de trabalhos sobre os estudos linguísticos maranhenses: " O português falado no Maranhão: múltiplos olhares". O livro é uma coletânea de artigos produzidos a partir dos dados do Projeto ALiMA feitos pelos professores pesquisadores e auxiliares de pesquisa do Projeto. Foram contemplados, nessa obra, inúmeros aspectos linguísticos do português falado no Maranhão, como os aspectos fonéticos, fonológicos, semânticos-lexicais, e aspectos sintáticos da língua. Esses aspectos são alvo das análises e das interpretações dos pesquisadores e estudiosos da fala maranhense do ALiMA.
Os textos foram organizados por três professores do departamento de Letras da UFMA, professores pesquisadores da área da Sociolinguística, da Geolinguística e da Dialetologia, professora doutora Conceição de Maria de Araujo Ramos, professora doutora Maria de Fátima Sopas Rocha e o professor doutor José de Ribamar Mendes Bezerra, todos pesquisadores do Projeto ALiMA. Além dos professores pesquisadores, são autores de artigos os auxiliares de pesquisa do Projeto, que são as mestres Cibélles Béliche, Zuleica Barros, Heloísa Curvelo, e Georgiana Santos, e os alunos graduandos do curso de Letras da UFMA, Artur Pereira Santana, Denise Aymoré, Edson Lemos, Gizelly Fernandes, Juliane Cutrim, Luís Henrique e Wendel dos Santos e as professoras Karla Pereira, Lígia Siqueira, Rafaela Abreu e Sandra Nívea.
Além do livro o português falado no Maranhão: múltiplos olhares (2010), são também livros importantes para o entendimento do português falado no Maranhão " O português falado no Maranhão: estudos preliminares" (2005) e " A diversidade do português falado no Maranhão: o Atlas Linguístico do Maranhão em foco" (2006), todos coletânea de artigos produzidos pelos professores e auxiliares de pesquisa do Projeto ALiMA.
Essas obras são importantíssimas para quem quer conhecer, mais seriamente, o português falado no Maranhão, visto que elas trazem informações científicas alinhadas com a Sociolinguística, a Dialetologia e a Geolingística e seus métodos. Recomendamos essa obra a estudantes e profissionais das áreas de Letras, Ciências Sociais, História, Antropologia, Sociologia entre outras áreas que tenham o homem e sua cultura como objeto de pesquisa.
Para adquirir essa obra, e as demais apresentadas aqui, é necessário entrar em contato com o Projeto Atlas Linguístico do Maranhão (ALiMA) pelos emails: projetoalima@gmail.com, alima@ufma.br.

Luís Henrique Serra
Aluno do curso de Letras da UFMA


quarta-feira, 20 de outubro de 2010